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outro

A minha é uma história estranha. E eu sou uma coisa estranha para a contar. Mas ninguém restou que a contasse por mim.
Fui concebido numa sala de reuniões branca e luminosa, desenhos baseados no lucro que poderia trazer aos meus criadores, e não baseado no que poderia acrescentar à vida de quem me comprasse. Mas isso seria um raciocínio raro de quem sabe apenas conceber na base dos cifrões.
Mas de uma linha de montagem automatizada e esterilizada nasci, e por motivos mais emocionais que lucrativos fui levado para casa do meu dono.
Este meu dono era uma pessoa absolutamente normal, com uma vida verdadeiramente real, sem qualquer pretensão a herói ou vilão da vida alheia, nem sequer da sua. Levava-o para o escritório todos os dias, e no caminho deixava os filhos no colégio, e mais tarde no liceu. Era lavado religiosamente todos os meses, porque no parque onde passava as minhas noites havia árvores e pássaros que me atingiam por gozo, ou assim me parecia, e por vezes chovia copiosamente.
A minha seria uma história absolutamente comum se não tivesse sido escolhido para receber um raro encargo. Um dia o meu dono pegou-me a horas tardias da noite, o que desde logo não era normal. Ao invés de se sentar ao volante, ajeitar o espelho enquanto os filhos se encaixavam nas legais cadeirinhas, abriu a porta do banco de trás, ficando apoiando um braço no meu tecto a olhar para dentro. Não parecia o meu dono, parecia outra pessoa. Mas as chaves eram do meu dono, e as mãos também. Reconheceria estas mãos em qualquer parte.
Mais decidido, pegou num embrulho que trazia arrastado e, a custo, empurrou-o para cima do meu banco. De imediato um cheiro a cobre podre percorreu os meus tecidos e ventilações, infiltrando-se no motor até chegar às profundezas dos meus pneus.
O meu dono atirou a porta de trás violentamente, outro acto invulgar para este homem tão normal. Lentamente dirigiu-se ao seu banco e abriu a porta. Sentou-se e ficou uns minutos a olhar para o meu volante, Enfiou a chave na ignição e instintivamente tentei acordar. A custo, porque aquele cheiro me agoniara a injecção e envenenara o combustível. Consegui obedecer, mas aos soluços para não morrer de vez tal era a minha náusea.
De repente senti uma carícia no meu banco de trás. Reconheci a mão da minha dona, ou melhor, da dona do meu dono. Reconheceria aquelas mãos em qualquer lado, suaves e pequeninas. Morri de vez, não conseguia avançar, não entendia que cheiro nauseabundo era aquele que provinha de tão amadas mãos. Solucei ainda uma vez mais para parar de vez.
O meu dono, talvez pressentindo a minha agonia, ou talvez partilhando desta invulgar agonia conjunta, desligou-me, e chovendo copiosamente em cima do meu volante, baixinho murmurou desculpa, e atirou qualquer coisa estranha contra a própria cabeça, que voou descontrolada até ao meu vidro, onde se desfez numa enxurrada de cheiro a cobre podre encarnado.
Como disse, a minha é uma história estranha, e mais estranho é ser eu a contá-la.

privo di titolo *

Quando era nova acordava todos os dias às seis da manhã. Quando era nova…
Quando tinha 25 anos acordava todos os dias às seis da manhã. Às seis e meia já estava na rua, pequeno-almoço tomado, cara lavada. Às sete entrava no ginásio, de onde saía pontualmente às oito e meia, para ir para o escritório. Onde entrava sem falta às nove todos os dias.
Almoçava à uma e meia, uma salada trazida de casa, comida apressadamente à frente do computador. Saía do escritório às oito da noite, ia ao supermercado buscar sopa pré fabricada e a salada do almoço seguinte.
Às dez da noite desligava o computador, limpava a cara, punha o creme dos olhos, o da cara, lavava os dentes, passava o fio dental, escovava o cabelo, punha creme nas mãos e nas pernas, óleo nos pés.
E ia dormir.
No dia a seguir levantava-me às seis da manhã.
Hoje já não posso dizer que sou nova. Hoje tenho sessenta anos. Tenho o corpo de uma menina de quarenta, e a minha cara não denuncia o passar dos anos.
E as minhas memórias de juventude nada mais são que horários escrupulosamente cumpridos onde me enclausurei sozinha. 

* Homenagem pequenina a Andrea Camilleri, sem pretensões de igualar a sua mestria, claro. 

pelo gozo

Zé Manuel chegou ao local do crime atrasado, como de costume. Com ar indiferente ao que o rodeava pôs a mão no bolso, com perícia desviando o sobretudo para o lado. Apagou o cigarro que ainda trazia na outra mão e entrou na casa onde tinha ocorrido o homicídio. Ao entrar, pensou que os homicídios eram sempre em casas como estas, anónimas, iguais umas às outras.
Dirigiu-se com passo sábio para a cozinha onde à sua espera se encontrava o corpo, já gelado e hirto dos rigores habituais. Esta era uma cozinha luminosa, toda em azulejos brancos e amarelos, de bom gosto, como aquela que a sua mulher, Maria, lhe andava a pedir há anos, mas que ultrapassava em muito o seu magro ordenado de funcionário público.
Tudo arrumado, tudo no sítio, nada indicava ser este mais um crime passional. Não havia dedadas de sangue em lado nenhum, nem se vislumbrava sequer uma vaga mancha da gordura costumeira em qualquer cozinha frequentemente utilizada. Parecia ter sido algo bem planeado. “Boa”, pensou ele animado, “este vai-me dar gozo”.
Cumprimentou com vigorosos “passou bem” o médico legista e o assistente que já se encontravam na cozinha, e perguntou-lhes se já tinham alguma conclusão quanto à hora em que o indivíduo tinha morrido. Às duas da manhã, laconicamente responderam em uníssono.
Ok. Agora vamos ver quem és. Com mestria colocou as finas luvas de látex, tirou o sobretudo e o casaco do fato, pondo ambos em cima de uma cadeira, e atirou a gravata para trás das costas, que nódoas de sangue são impossíveis de tirar e esta era a sua gravata boa. Ajoelhou-se ao lado do corpo, com cuidado para não pisar nada que pudesse ser relevante no decurso das investigações. O cadáver estava deitado de lado, quase em posição fetal. Parecia até confortável, como se estivesse só a descansar, não fosse o pormenor de estar em cima do frio linóleo. Devagar e com cuidado virou o corpo para ver a cara da vítima e teve um choque. Reconheceu-o de imediato. Era o Vasco.
Conhecera-o através da Maria num jantar, há duas semanas. Zé Manuel e Maria tinham ido jantar fora com o Vasco e com a mulher dele, que se bem se recordava chamava-se Teresa. Vasco era gestor de uma empresa da moda, bem parecido e bem-falante, e tinha ido ao jantar com ar descontraído de quem não tem problemas em escolher a roupa adequada para cada situação. Maria por sua vez tinha-o conhecido no ginásio que ambos frequentavam religiosamente.
Bolas, agora ia ter que se escusar da investigação. E ele que andava ultimamente ocupado apenas com míseras queixas de injúrias e crimezinhos do género… Este homicídio sempre seria um bom desafio. Se calhar não ia dizer nada já, ia aproveitar só mais um bocadinho até dizer que se tinha que escusar.
Levantou-se rapidamente e voltou ao hall de entrada da casa, onde estavam em cima da mesa de apoio, como seria de esperar, as chaves de casa e o telemóvel de Vasco. Em voz alta perguntou se alguém tinha avisado o parente mais próximo e uma voz longínqua respondeu que sim, a mulher dele estava a caminho do aeroporto. Era a sua oportunidade. Quando ela chegasse, olharia para ela e fingiria que só se tinha apercebido nesse momento que conhecia a vítima.
Rapidamente pegou no telemóvel do Vasco e foi verificar as últimas chamadas recebidas. De repente o seu coração parou. O último número marcado era o de sua casa... Sem perceber bem o que fazia ligou para o voice mail, tentando manter uma postura normal com a ajuda discreta da mesa de apoio, enquanto se debatia contra invisíveis murros nos pulmões que não o deixavam respirar.
Sem acreditar no que ouvia, percebeu que se estava a ouvir a si mesmo, numa versão metálica da sua voz, a ameaçar de morte a vítima se ele não acabasse o romance que, pelos vistos, estava a ter com a Maria. Agarrou-se à mesa da entrada com força para acabar com as tonturas que o rodeavam tortuosamente, mas não conseguiu, e acabou por cair no chão sem forças.
Sobressaltado acordou. Eram duas da manhã. Olhou à volta, estava na sua cama. Era funcionário público, é verdade, mas de uma repartição das finanças, não da polícia judiciária. Mas era mesmo casado com a Maria.
E tinha mesmo que arranjar coragem para lhe pedir para ir um bocadinho menos ao ginásio, a ver se ele voltava a dormir decentemente...

vida triste com final feliz

Saiu de casa depois do almoço comido cerimoniosamente à mesa da casa de jantar, enquanto desfolhava uma revista de 1960, ano em que se tinha casado com aquele que foi o seu grande e único amor. Morto na guerra colonial, não lhe tinha dado tempo de ser sua mulher ou mãe dos seus filhos. Deste casamento apressadamente acabado restou-lhe o luto pesado usado até hoje com o orgulho de quem não quer esquecer a felicidade que um dia sentiu.

Dirigiu-se em passos falsos para o café da esquina, onde já lhe conheciam os hábitos, e sentou-se na primeira mesa da porta. Café escuro mas bem frequentado, de funcionários simpáticos e clientes solitários, com paredes preenchidas de caixas de chocolates empoeiradas que exibiam marcas já desaparecidas há muito.

Pediu o habitual, o café, o copo de água e o pastel de nata, e assim se iniciou a sua rotina da tarde. Cada cliente que entrava era perscrutado de alto a baixo e, se não reprovasse em tão real exame, era saudado com um “bom dia vizinho”, porque ali todos eram vizinhos, e com uma descrição detalhada do seu dia até essa hora. Como o café era maioritariamente frequentado por clientes habituais, este ritual era aceite e recebido de bom grado, que a vida é madrasta e os filhos se os houve há muito se foram.

À hora do fecho ia devagar para casa, equilibrando-se na sua bengala, arrastando os pés para não arriscar cair na traiçoeira calçada lisboeta, murmurando ainda pequenos acontecimentos do café para quem a quisesse ouvir.

Um dia não saiu de casa a seguir ao almoço. Na verdade, um dia nem se levantou. Se se tivesse levantado teria assistido, desgostosa, ao derrubar da porta de sua casa pelos bombeiros do bairro, chamados a acorrer à senhora da mesa 1 pelo dono do café.

Mas não se levantou. Morreu feliz a dormir, enquanto sonhava com o dia do seu casamento em 1960. E foi encontrada com um grande sorriso nos lábios, coisa que nunca se lhe tinha visto em vida.

it changes when the sun goes down

A música batia-me bem alto no peito, pulsava-me nas veias enquanto abanava o corpo inconscientemente, perdida entre em nevoeiros de álcool cigarros e suor, cheiros estranhos à minha volta.
As peles tocavam-se sem parar, sem tréguas, tudo igual, sem tabus nem receios.
Os olhares eram sempre profundos, mesmo quando não queríamos, e muitos corações eram partidos só com um levantar de pestanas insensato.
Os rímeis escorriam pelas caras suadas de energia e choros nas casas de banho à velocidade da luz.
Romances feitos à pressa entranhavam as unhas nos meus braços, posses nocturnas inconsequentes que deixavam as marcas que conseguiam onde conseguiam e como podiam.

Happy event

Quando abriu os olhos pela primeira vez só viu uma luz imensa e desatou a chorar. Mas que raio era isto? Porque a tiraram de onde estava, da sua casinha, quentinha e aconchegante, onde estava rodeada daquele líquido suavezinho e espesso, para a deixarem aqui ao frio, sem nada à sua volta que a protegesse? Mas que diabo de criaturas malvadas podia fazer isto a um pobre ser indefeso, que mal abria as pálpebras e cuja única forma de comunicação eram uns inofensivos balidozinhos?
Mas de repente embrulharam-na numa coisa quentinha e aconchegante, que lhe lembrou o líquido da sua casinha perdida, e pousaram-na num sítio molinho, que mexia e lhe fazia umas cócegas no braço.
Já sem chorar, abriu os olhos mais uma vez e viu a coisa mais bonita que alguma vez tinha visto. Não sabia bem o que era, mas olhar para ela fazia-a sentir-se muito bem, como se tivesse voltado para a sua casinha. A esta coisa linda linda juntou-se outra, maior e diferente, e então percebeu que este lugar era ainda melhor que a sua casinha, e já calma, fechou os olhos e adormeceu, aconchegada ao colo da sua mãe, sob o olhar embevecido dos recentes Pais.

podia ter acontecido

Freneticamente abria os braços e voltava a baixá-los desencorajada. A sua cara marcada estampava um contagiante desespero, qual Medusa de tempos ditos modernos.
Tinha os cabelos pretos compridos emaranhados, e à cintura uma velha bolsa coçada, pendente sobre a saia comprida que parecia um dia ter sido encarnada. Nos pés restavam tiras do que poderiam ter sido sapatos, quem sabe, e o peito trazia coberto apenas com o que poetas melhores cantariam como fina cambraia encardida. As faces escuras, sujas de séculos de podridão herdada, estavam por ora rosados de angústia.
Nenhuma das centenas de pessoas apressadas que nela tropeçavam ousava desviar o olhar do caminho pré estabelecido, assustadas pelos gritos de dor que ia soltando. Pegar-se-ia pela caridade?
Finalmente um bom samaritano de outros tempos aproximou-se daquele aflito embora estranhamente belo animal, depois de calmamente ter bebido a sua bica na improvisada plateia.
Após várias tentativas goradas de contacto, o nosso bom samaritano compreendeu finalmente que alguém lhe arrancara o filho bebé das mãos, e o levara para parte incerta, mesmo ali onde se encontravam, e ninguém fizera um gesto redentor... Nem mesmo ele...

excepção à regra

Nunca tinha casado, nunca tinha tido filhos, nunca tinha comprado uma casa nem tinha aderido a qualquer health club em busca da vida ideal. Nunca tinha ganho qualquer prémio, nunca tinha tido um salário acima da média e nunca tinha sido promovida a um cargo de sonho. Não tinha imensos amigos nem saía à noite todos os fins-de-semana em serões memoráveis.
Mas era feliz. Tinha a perfeita noção que ela não era nada daquilo que a sociedade exigia como requisitos mínimos de felicidade garantida. Era rechonchuda, tinha celulite, tinha cabelos brancos que não pintava. Não se vestia à moda e raramente comprava roupa nas Zaras deste mundo. E era feliz.
Não ia jantar aos restaurantes badalados que faziam o objecto das descrições animadas dos jantares das suas amigas, não tinha o nome nas guest lists dos bares da moda da capital, não era convidada para as Lisbon Fashion weeks ou afins. Não fazia férias em Courchevel nem na Sardenha. Não era alvo das máquinas dos fotógrafos das revistas cor-de-rosa e ninguém tinha qualquer curiosidade em saber com quem é que ela tinha tido romances fugazes.
E no entanto se alguma vez lhe perguntassem do que sentia verdadeiramente falta, ela responderia com um sorriso sincero, ‘nada’.
Tinha tudo o que queria ter na vida. Sentia-se verdadeiramente abençoada por estar viva. Achava aliás bastante ridículo a maneira como toda a gente andava sempre a correr para ter mais qualquer coisa. Quando alguém lhe contava entusiasmado como tinha comprado aquele gadget do momento, ou como tinha encontrado o homem dos seus sonhos, ou como tinha tido um aumento, ou uma promoção, tinha alguma dificuldade em entender a razão de tanto exaltamento. E sorrindo interiormente, tinha a certeza que quem era verdadeiramente realizada era ela, que comia o que queria, fazia o que queria e não sentia necessidade desses mesmos gadgets, homens de sonhos caducos, aumentos ou promoções.

assim-assim

Deixo a água quente escorrer-me pelos cabelos, costas, cara, até se afundar nos meus pés. Tento imaginar que cada gota de água que percorre o meu corpo é as tuas mãos, a tua boca, que de cada vez que inspiro é o teu cheiro que sinto... Tenho que me apoiar na parede para não cair, tonta de desejo criado mas não consumado.
Nada disto faz sentido, na realidade. Obrigar seres nómadas a se ancorarem mutuamente é absurdo. Apelo ao meu cérebro para invadir a minha alma, conquistar pensamentos que me afundam e hastear bandeira sobre sentimentos descontrolados.
É inútil...

talvez saudades da terra que nunca tive

Quando vim da serra cá para baixo tinha 13 anos. Nunca tinha visto o mar, só as ribeiras ao pé de casa, onde o meu pai levava as ovelhas a pastar quando era cachopa, depois ficou sem as ovelhas e teve que ir trabalhar para a fábrica, onde se embalava a água. Na altura não entendia porque é que a água era embalada assim, então as pessoas não podiam ir buscar a água às fontes como nós íamos? Ou abrir furos como os meus pais fizeram quando finalmente puderam construir a nossa casinha lá ao pé da aldeia? Depois de vir para a cidade grande percebi, aqui não há terra para furar, nem fontes de onde brote água tão límpida como as das nascentes na serra, onde podemos mergulhar a cara toda nos dias de verão e sentir o líquido gelado escorrer-nos pelo pescoço…
Depois de vir para a cidade grande tive que me acostumar a coisas tão estranhas como a ir buscar ao supermercado alfaces já ensacadas e fininhas fininhas como se fossem feitas daquele papel vegetal com que a minha mãe fazia as lérias lá em casa, ensinada pela minha tia cozinheira do convento. Acostumei-me também, apesar dos meus lamentos, àqueles papo secos que se desfazem mal se lhes pega, de crosta mole e meia empapada… Ainda tenho tantas saudades daquele pão áspero que a minha mãe tinha sempre pronto de manhãzinha, nem sei bem se aquela santa alma alguma vez dormiu. Também tenho muitas saudades das festas lá em casa, na consoada era ver a minha mãe com as minhas tias e a minha avó, saiotes em rodopio contínuo como nos bailes dos sábados, atarefadas à volta do velhinho fogão a lenha entre sopas, bacalhau, filhozes e afins...
Mas o que nunca me acostumei aqui na cidade grande é a esta pedra gelada da calçada que esconde a terra como se aqui não fossemos todos animais como os outros…

jogo

Quando saiu do consultório eram três da tarde de um dia solarengo da capital. O calor desta cidade lacrada atingiu-o com um soco violento no queixo. Atordoado procurou de olhos semicerrados os seus óculos escuros, que pôs nos olhos sôfrego de sombra e silêncio.
O médico que tinha acabado de consultar tinha-o informado, ‘com muito pesar’, que tinha encontrado um corpo estranho na sua cabeça, uma coisa que nada tinha a ver com ele, com os seus sentimentos ou memórias. Tinha-lhe dito que aquele ser alienígena do seu corpo o mataria no prazo máximo de um mês. Melhor, tinha-lhe dito que ele tinha um mês de vida.
‘Engraçadinho o médico!’, pensou ele, ‘terá alguma bola de cristal? Porquê um mês quando eu posso morrer antes? Posso ser atropelado por este carro que aí vem a descer a rua’ e pôs um pé na estrada, devagar, sem pressas. ‘Ou posso morrer engasgado com o bife que vou comer logo à noite. O que lhe dá tantas certezas que só vou morrer daqui a um mês? É que essa certeza é mais do que alguma vez tive. Nunca soube se não ia morrer no segundo a seguir por alguma razão desconhecida. Portanto, se me afirmam com toda a certeza que só morro daqui a um mês, isso é mais do que eu tinha antes.’
E com esse pensamento tirou o pé da estrada, voltou para o passeio e foi atravessar a rua na passadeira.

who is the crazy one?

- E já agora, porque é que acabei assim, hás-de me explicar. Velho, feio e pobre, sempre tão sozinho – murmurou o velho, de cabeça baixa, olhos fixos nos pés envoltos em farrapos igualmente velhos que um dia terão sido, imaginemos, sapatos.
- Já te disse que eu não contribuí para isso. Foi tudo escolha tua. Já andámos às voltas com esta conversa, para quê é que me perguntas sempre o mesmo?
- Esperança que me digas alguma coisa diferente... Isto não pode ter sido tudo escolha minha... Não me lembro de ter escolhido beber até à exaustão todos os dias, andar pelas ruas em farrapos a pedir esmolinha, faça frio ou sol, a eternos transeuntes a quem só vejo as pernas, com sorte as mãos... Não escolhi ter sido esquecido pelos meus, lá da terra... – respondeu o velho, tristonho enquanto coça a barba castanha não de cor, mas de sujidade já inata.
- Ah não? E quando vieste para a cidade trabalhar? Não foste tu que escolheste não ir acabar a escola à noite? Bem que me lembro das vezes que te tentei dizer isso, nunca ouviste. E quando batias na tua Maria, quantas vezes não te avisei que ela qualquer dia te deixava? Também nunca ouviste... Sempre bêbado, apesar de todos os esforços que fiz para afastar a garrafa da tua boca. Preguiçoso ingrato! Velho casmurro! Tu escolheste tudo o que te era mais fácil para ti em todas as alturas!
- Tens razão... – disse o velho, começando a chorar inconsolavelmente, aquietando-se aos poucos enquanto se embalava para a frente e para trás. – Mas estou tão sozinho... Ninguém para falar...
- Tens-me a mim! Nunca te falhei pois não? Porque é que te ia falhar agora?
- Não percebo porque é que está toda a gente a olhar para nós.... – disse de repente o velho finalmente levantando os olhos do chão – Achas que temos alguma coisa na barba?
- Não ligues, já sabes como é a gente. Anda mas é daí que temos que sair nesta paragem

E assim lá foi o velho, saindo do metro cambaleando no seu casaco comprido coçado do tempo e da fria calçada onde se deitava, sempre a falar para o enorme vazio que o rodeava.

individualidades uniformes

Acordo de manhã todos os dias à mesma hora. Manhãzinha bem cedo. Levanto-me rapidamente ao primeiro toque do despertador. Ponho os chinelos, que deixo sempre à noite bem alinhados ao lado da cama, ao nível onde os meus pés aterram quando me levanto. Visto o roupão estendido sobre a cadeira ao lado da cama, e imediatamente abro a janela. Não sinto o frio entrar pela gola do roupão, através do meu pescoço, chegando até às minhas costas depressa demais. É tudo uma questão de força mental, nada mais. O frio é psicológico.
Faço a cama rapidamente, e olho em volta para me certificar que o quarto fica bem arrumado. Não que seja fácil desarrumá-lo, os poucos pertences que tenho resumem-se a uma cama individual, de metal, uma cadeira de plástico branca, daquelas de jardim, herdada já nem sei de quem, um candeeiro de plástico também ele branco, descartável como qualquer outro produto para consumo das massas, e um mísero despertador digital.
Com passos ordenados vou à cozinha, onde ponho o café a fazer na velha moka dos meus Pais. Abrindo a porta das traseiras encontro pendurado, como é usual, os dois diários papo-secos encomendados semanalmente na padaria da esquina, a 10 cêntimos cada um. Congelo um para o jantar e como o outro, com manteiga, acompanhado de um morno café com leite.
Lavo a loiça e seco-a rapidamente. Tiro para fora o jantar de hoje, sempre para uma pessoa só.
Tomo um duche rápido, não mais que dois minutos, secando-me à toalha propositadamente áspera para acordar. Faço a barba, lavo os dentes, penteio o cabelo e visto o fato azul escuro. Não uso perfume, na minha cabeça isso é coisa de casal, de que nunca fiz parte.
Agarro no telemóvel, nos óculos escuros comprados na promoção do hipermercado, no porta moedas e nas chaves de casa e saio de casa, trancando a porta de imediato.
Dirijo-me com passos rápidos para a paragem do autocarro.

Será que é hoje que algo diferente me acontece?

a máquina

Como era possível serem apenas três da tarde e já estar tão cansada... Não era só um estado de saturação emocional pela falta de sentido do seu dia a dia (que não se lembrava de ter escolhido activamente), mas mesmo fisicamente cansada.
Com um suspiro profundo ajeitou a carteira debaixo do cotovelo, há sempre umas corjinhas de gatunos nas estações de metro, que nos apanham desprevenidas para tomar como deles o que nos custou tanto a ganhar...
Enfim, era a vida como ela era, não podia fazer nada para a mudar...
Chegada às escadas rolantes da estação de metro percebeu que as escadas ascendentes estavam avariadas, apenas funcionando as escadas descendentes. “que raio de lógica”, pensou ela, resmungando em murmúrios sobressaltados, “agora ter que subir estes degraus todos, com a carteira e a pasta mais as compras...”.
Bem, lá tinha mesmo que ser, o que é que ela ia fazer, não havia elevador e não sabia a quem se queixar.
Começou a subir, primeiro com alguma energia, resquícios de cafés matinais em excesso, depois mais devagar, até chegar ao ponto de ir subindo degrau a degrau, agarrada ao corrimão, arfante pecadora de cigarros fumados furtivamente. Olhando para cima percebeu que alguma coisa estava errada, mas não conseguia perceber o quê. Enquanto a parte direita do túnel da estação, onde se encontravam as escadas rolantes descendentes, estavam bem iluminadas, o lado esquerdo, o das escadas ascendentes, encontrava-se escurecido, e ao fundo do túnel só conseguia ver costas de pessoas paradas.
Quando finalmente chegou ao topo das escadas, ofegante, encaixou-se naquela barreira de casacos, à espera de passar e poder ir trabalhar, que estava a ficar atrasada. Mas que remédio há que respeitar as filas, não podia começar a empurrar toda a gente.
Devagar a multidão avançava, em uníssono, como um muro arrastado por correntes sobrenaturais. Não se ouvia um ai. Apenas o lento arrastar dos pés quando se ganhavam alguns milímetros de espaço à frente. De olhos baixos, a multidão só via os pés da pessoa à sua frente.
Foi por isso que ninguém se queixou de levar um tiro na fronte quando a fila seguinte do muro chegava à porta da estação. Os jornais chamaram-lhe uma inteligente medida de controlo do sobrepovoamento do país. Foram louvados os esforços do exército e sobretudo a contenção com que tudo decorreu.

O que escapou a todos os comentadores e politólogos foi que ali não se mataram seres humanos, apenas componentes irracionais de uma bem oleada máquina.

sereia suburbana

Lá ia ela pelo terminal do metro, a abanar a anca como se ainda estivesse na praia, ponderadamente inconsciente do efeito que causava ao passar, aliciante odor de sol e mar que se espalhava pelas alvas catacumbas. Ia murmurando entre dentes uma qualquer música que egoisticamente ouvia, levantando por vezes os olhos encarnados do sal, devagar, sem pressas.
Entrou no comboio à minha frente, ficou em pé, encostada ao poste, flirtando com as pulseiras várias que trazia nos pulsos e com os longos cabelos que lhe caíam pelo peito.
Senti-me completamente hipnotizado por tanta ingénua perversão, não conseguia tirar os olhos desta sereia suburbana, certamente oriunda dos meus mais íntimos pesadelos, que se mantinha altiva e alheia ao meu insidioso exame.
De repente, sem qualquer espécie de aviso prévio, as luzes do comboio baixaram para permanecermos numa acolhedora penumbra, e a carruagem encheu-se de fumo rasteirinho. Ficámos só nós os dois, o mundo tinha desaparecido, e o comboio andava cada vez mais depressa, sem sinal de preocupação com eventuais paragens.
Ela olhou para mim, desta vez de frente, e a música que só ela ouvia ecoou inesperadamente nos meus ouvidos, enquanto ela languidamente mexia no cabelo, atirando os longos cachos para trás das costas, sem nunca desviar o seu olhar sonolento do meu. Com uma mão no poste começou a dançar, contorcendo-se só para mim, em poses lentas, sem pressas.
Largou o poste e pé ante pé, no mesmo ritmo suave, dirigiu-se a mim, pousando uma mão sobre a minha perna, a outra no meu ombro, aproximando a boca sabor a cereja do meu ouvido, e murmurou roucamente “acorda”...
- Acorda! É a nossa paragem!
Lá estava ela, à minha frente. Envergonhado da triste figura que sem dúvida teria feito a sonhar, baboso, baixei os olhos ao passar perto dela, sem antes reparar no fugaz piscar de olhos que me ofereceu com um sorriso a meia haste.

kindness of strangers

Arrasto-me durante as aulas da manhã. Antes de vir para o liceu pus duas cartas na estação dos correios ao lado de casa, uma para os meus pais e outra para ele. O culpado de tudo. Claro que ele não vai poder lê-la, mas quero que os pais dele a leiam quando estiverem a chorar pelo fim da miserável vida que geraram. Quero que eles saibam que ele foi o causador de tudo isto, que se ele estivesse calado nada disto tinha acontecido. Ele era o motivo, o fim, a razão, e quero que todos saibam disso e percebam que ele não merece qualquer lágrima que por ele seja vertida.
Eu ia só revelar-lhes as consequências do que fizeram, era apenas a mão divina que lhes traria o merecido e justo castigo! Tantas vezes rezei à noite para que a tortura acabasse, para que eu pudesse ir ao liceu pelo menos um dia sem ter que me defender daquele círculo infernal. Implorei tantas vezes por absolvição do pecado maior e desconhecido que fez cair sobre mim esta punição diária. Mas nunca tinha tido qualquer resposta às minhas preces. E de repente percebera claramente que temos que ser nós mesmos a responder às nossas próprias preces, a trazer para nós a força dos céus contra os ímpios. Pecadores sem contrição. Sou o veículo da fúria sagrada, devida e esperada.
As armas pesam-me no cinto, e o casaco comprido desajustado deste calor traz a mim os olhares dos que sofrerão a minha raiva. Tento recordar-me de cada um deles para ter a certeza que hoje não escapam. Lobos em pele de carneiro, crueldade adolescente sem justificação possível, psicologia barata não os salvaria. Hoje não. E não de mim.
À hora do almoço, no fim da última aula, levanto-me para ir fechar a porta da sala para começar a espalhar ao meu redor a força da merecida fúria mas sou agarrado por uma mão que me toca no ombro.
- Boas férias Carlos! – ouço alguém dizer com uma voz ensolarada. Ela sabe o meu nome! Sem saber porquê respondo, fraco, “obrigado”, e saio da sala para o corredor barulhento de miúdos quase em férias grandes e descoberto do meu plano, com o coração tremendo, sorrio.
Afinal, é o meu último dia de liceu, a faculdade prevê-se menos agreste, para quê perder tudo agora… Ela até sabe como me chamo…

summertime lemonade

Eram cinco da tarde. O preguiçoso dia de Verão, embriagado de caipirinhas e banhos de mar, ameaçava acabar, lento... Evaporava a ânsia de sol que nos guiara até aqui, zombies de vontade. O torpor dos mergulhos invadia-nos as pernas, e deitados na toalha dura de sal entreabrindo os olhos imaginávamos errantes fantasmas entre a sombra das pestanas. O sabor da pele plena de maresia era viciante, e colávamos a boca ao braço indecisos se íamos para a esplanada ou continuávamos ali.
Com pequenos gemidos de prazer egoísta mudávamos devagar de posição até estarmos colados, corpos fundidos em desavergonhadas poses.
Finalmente nos levantamos, decididos, recolhendo os despojos do dia de praia, roupa que arranha e toalhas que não dobram, e com óculos de sol e perversa languidez sentamo-nos nas cadeiras de plástico envelhecidas pelas intempéries dos anos. Cabeças inclinadas para trás, quais desenraizados girassóis, pés descalços … Mais uma sangria e um cigarro, coragem para voltar para casa… Palavras que se tornam murmúrios e mãos simbióticas em constante contacto… Sábados…

human behaviour

Anseio por ti, pelo teu cheiro, pelo teu colo, pelas tuas mãos no meu pêlo, nas minhas orelhas. Porque me largaste? Não ficava suficientemente contente quando te via? A cauda não batia com força? Não saltei tão alto como devia quando entravas em casa, cansado da rua?
Eu esperava por ti todos os dias à porta, religiosamente. Sentado em sentido e alerta para não deixar intrusos entrarem na tua toca. Portei-me bem, não foi? Então porque é que me deixaste aqui, ao frio, no meio de estranhos cheiros e formas que não conheço, pernas alheias que não consigo subir? Não gostavas quando me levavas a passear e eu adaptava o meu passo rápido de animal irracional ao teu humor? Lento se estavas triste, rápido se chateado, e solto se feliz.
Não encontro o teu rasto, perdi-te na cidade, nesta pedra fria que arrefece o meu olfacto. Os meus olhos não explicam por quem eu procuro, inutilmente tento ganir à gente para que me leve para casa. Mas como? Não sei onde é casa.
E de repente encontro-te! Lá estás tu, a correr, mãos em concha em frente à boca! Estás a chamar-me! Ó alegria suprema de te ver! Estou aqui, vês-me? Ouves-me? E de repente olhas para mim e a tua cara abre-se num sorriso que me faz saltar para o teu pescoço como louco, como nunca!
Leva-me para casa, por favor… Prometo que me porto bem…

jogos nabokov

Era adorável com ao seu mini vestido cor de rosa que quase nada tapava, aliás nem seria esse o propósito. Do alto dos seus quinze anos espalhava um aroma de pastilha elástica de morango misturado com o perfume da moda e o odor dos cigarros roubados à socapa da carteira da sua mãe. Os cabelos castanhos tingidos do sol, sal e cloro trazia compridos e emaranhados num estado permanente de sono interrompido que deixava tudo à imaginação. A boca era quente e cor de rosa como o vestido e parecia estar constantemente a brincar com um chupa-chupa de um qualquer sabor perverso. Os olhos trazia-os tapados por uns óculos de sol de outros tempos, relíquias de juventude alheia. A pele morena das férias grandes coberta de penugem loira era uma provocação por si mesma. Os pés pequenos adornados com havaianas brancas contrastavam com a cor da pele que contrastava com as cores da pulseira que abanava com orgulho no tornozelo como se orgulhosa morena de Angola fosse…
Era adoravelmente tentadora neste espectáculo depravadamente apetecível, este pacote que usava à discrição para atingir objectivos de menina mimada. Fosse quem fosse o alvo da sua atenção - de curta duração, sempre - não tinha qualquer hipótese, resistir era inútil, e qualquer tentativa de luta só lhe dava mais prazer na perseguição da sua presa.
Quando finalmente se dignava a tirar os óculos de sol, os olhos cor de escárnio escaldante derretiam qualquer corpo a ponto rebuçado. Um pequeno levantar de sobrancelha treinado ao espelho e um semi-sorriso de garotice bem estudada eram quanto bastava para a rendição total.

rituais preparatórios

Acordava de manhã cedo, bem cedo. Demorava muito tempo a arranjar-se para ir trabalhar. Primeiro retirava o produto branqueador dos dentes que uma amiga lhe tinha trazido do estrangeiro. Depois o pequeno-almoço, sempre em casa, na enorme mesa da casa de jantar que ainda pagava em suaves prestações mensais. Com o seu roupão cor-de-rosa, o cabelo já penteado, e na cara a substância pastosa da máscara daquele dia. Comia com calma, sem pressas. Odiava correr de manhã. Arrumava a cozinha, arrumava o quarto, escolhia a roupa com cuidado. O duche também era lento e acolhedor, para acordar o corpo e a mente. Tinha lido numa revista que este era um dos primeiros rituais de paz diária para mulheres facilmente impressionáveis com tais verdades absolutas.
Enxugava-se vigorosamente, com uma toalha com propriedades esfoliantes comprada por catálogo, já não sabia qual deles. Espalhava o creme anti-envelhecimento nos braços, na barriga o creme redutor e nas pernas o anti-celulítico da praxe. Passava o creme dos olhos, aquele boião pequeno espelhado com elementos marinhos e o creme anti-rugas para peles mistas a oleosas no resto da sua cara mimada. Punha com algum sofrimento necessário as lentes de contacto com suaves reflexos de azul para esconder os olhos castanhos. Os dentes eram lavados com toda a precisão, primeiro a escova, depois o fio dental, depois o elixir. Vestia-se com cuidado para não amachucar a roupa neste processo difícil que era tentar sair de casa de manhã. Agarrou no secador e na escova redonda metálica e, concentrada, reformulou o cabelo como sabia que era a moda naquela estação. A cor aplicada no cabeleireiro era a ideal, estava orgulhosa de si mesma.
Agora era a sua parte preferida.
Escolheu a base e o anti-olheiras para aquele dia.
Primeiro a base, com a esponja especial que lhe tinha custado mais do que seria de esperar.
Depois com cuidado o anti-olheiras debaixo dos olhos.
Depois o iluminador nos sítios chave.
Depois o eyeliner e o risco nos olhos, a sombra cor-de-rosa a dar com o vestido escolhido.
Depois retocava o eyeliner e o risco.
Depois o rímel nas parcas pestanas.
Depois o pó solto para uniformizar a palete de cores da sua cara.
Depois o blush para acordar as bochechas.
Depois o batom também cor-de-rosa. Beijou ternamente um pedaço de papel higiénico como tinha visto inúmeras vezes nos filmes.
Finalmente o gloss.
Estava pronta para sair de casa. Pegou no casaco e na carteira e saiu. Passou pelo quiosque a comprar as revistas que tinham saído naquele dia, várias com várias celebridades nas capas e letras chocantes que revelavam vidas mundanas e dramas telenovelescos, e noutras com chamarizes irresistíveis como “Seja feliz em doze passos”.
Abriu a porta do carro. Sentou-se. Era hoje que ia conhecer o seu homem, o seu príncipe encantado. Tinha a certeza, estava pronta.